
Você abre o LinkedIn e vê que uma empresa consolidada do setor emitiu um CRI de R$ 700 milhões. Desce um pouco mais e encontra alguém falando sobre uma captação bilionária de uma rede varejista. Em outro cenário, participa de um evento e ouve um painel sobre a importância de auditar balanços por uma "Big Four". No fim do dia, a notícia que domina o mercado é de uma grande companhia abrindo capital na B3.
É natural que, diante de exemplos assim, você pense: “tomada de crédito é só para gigantes”.
De onde vem esse mito?
A comunicação do mercado privilegia as grandes transações, porque são elas que atraem mais visibilidade. Além disso, há uma confusão entre diferentes estágios de maturidade empresarial: IPOs e auditorias internacionais são exigências de companhias abertas, mas isso não significa que a tomada de crédito esteja vedada às empresas menores.
Nos últimos anos, vimos operações de R$ 15 a 30 milhões viabilizando desde obras de incorporadoras regionais até a expansão de empresas de médio porte em outros segmentos. Esses empreendedores não tinham um balanço auditado por Big Four nem plano de IPO, mas organizaram documentação, apresentaram projeções realistas e construíram governança mínima para dar segurança ao investidor. O crédito chegou, e o projeto saiu do papel.
A tomada de crédito não é privilégio das grandes companhias. Investidores e fundos olham para três elementos centrais: garantias, governança e capacidade de execução. Ter balanço auditado por Big Four ajuda, mas não é pré-requisito absoluto. IPO é apenas uma das formas de acessar capital, e não a mais comum para muitos setores, como o setor imobiliário. A porta de entrada para pequenas e médias está em estruturas adequadas e desenhadas de acordo com o porte e ao setor, no imobiliário, por exemplo, desde plano empresário ao CRI ou linhas estruturadas de capital de giro em outros mercados.
Se você é empreendedor e pensa em captar, comece pelo que está ao seu alcance: organize o fluxo de caixa, prepare um cronograma físico-financeiro claro e assegure que as garantias estejam bem documentadas. Mas não se esqueça de que a estratégia comercial também é importante, o investidor quer ver que você vendeu bem, que tem tração comprovada e que seu produto está adequado ao mercado.
Esses pontos, mais do que o tamanho do balanço ou o nome da auditoria, são os que realmente destravam a análise de crédito.
O mito de que a tomada de crédito é exclusiva das grandes empresas só serve para travar o crescimento de quem ainda está construindo sua história. O capital existe, mas ele exige preparo. A verdadeira pergunta não é “sou grande o suficiente?” e sim “estou organizado e estratégico o suficiente para acessar recursos?”
🔎 Sobre a série “Mitos & Verdades” - Esta é uma série criada para esclarecer as principais dúvidas de empreendedores sobre crédito e funding. Ela acontece de forma intercalada às edições completas da nossa newsletter Funding Insights, sempre trazendo histórias reais, análise técnica e orientações práticas.
💬 Participe Tem alguma dúvida ou mito que você sempre ouviu sobre o mercado de crédito? Envie para nós. Sua pergunta pode se transformar em um dos próximos capítulos desta série.
Até a próxima semana,

Levando educação. Criando um novo mercado.
📖 Glossário da edição
Big Four – As quatro maiores empresas globais de auditoria e consultoria: Deloitte, PwC (PricewaterhouseCoopers), EY (Ernst & Young) e KPMG. Ter balanço auditado por uma delas é visto como um selo de credibilidade, mas não é condição obrigatória para captar recursos no mercado.
IPO (Initial Public Offering) – Oferta Pública Inicial. Processo pelo qual uma empresa abre capital na bolsa de valores, permitindo que investidores comprem suas ações. Apesar de muito comentado, é apenas uma das formas de acessar recursos e não a mais comum no setor imobiliário.
CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários) – Título de crédito emitido por uma securitizadora, lastreado em recebíveis do setor imobiliário. Pode ser estruturado em diferentes portes, inclusive em operações médias, acessíveis a incorporadoras regionais.
