Toda negociação de crédito converge para a mesma pergunta. Qual a taxa. O incorporador liga para três estruturadores, anota o número de cada um, coloca lado a lado e fecha com o menor. É objetivo, é comparável, e é a forma mais rápida de tomar a decisão errada.

A taxa é a primeira linha da planilha. Ela não é a planilha.

O que você paga por um crédito não é a taxa. É a taxa multiplicada pelo tempo em que você carrega o saldo, somada ao custo de estruturar a operação, ajustada pela flexibilidade que o instrumento te dá quando algo atrasa. E algo sempre pode atrasar.

Duas operações podem ter exatamente a mesma taxa nominal e custar valores muito diferentes no fim. A diferença mora em quatro lugares que quase nunca entram na comparação inicial.

O primeiro é quando você começa a amortizar. Um instrumento que cobra só juros durante a obra, enquanto o empreendimento ainda não gera recebível, preserva o seu caixa exatamente na fase de maior aperto. Você paga o custo do dinheiro e devolve o principal depois, quando as vendas performaram. Outro, com a mesma taxa, exige juros mais amortização desde o primeiro mês, e passa a drenar caixa justamente quando você menos tem, porque a obra consome e ainda não devolve.

A taxa é idêntica nos dois. A curva de caixa é oposta. E como é o caixa que quebra incorporador, não o custo nominal, essa diferença costuma pesar mais que meio ponto de taxa a favor da segunda opção.

O segundo é como o principal volta no fim, e aqui a comparação que mais confunde é bullet contra cash sweep. No bullet, o principal é uma bala única no vencimento: durante todo o contrato você só serve os juros, e o saldo devedor fica parado no valor cheio até a data final. É previsível e libera caixa no meio do caminho, mas você paga juros sobre o montante liberado o tempo todo, então o custo total é mais alto. No cash sweep, cada entrada de recebível é varrida direto para amortizar a dívida à medida que as vendas acontecem: o saldo cai antes do vencimento, o juro incide sobre um montante que encolhe mês a mês, e o custo total sai menor. Mesma taxa, dois produtos: um troca custo por previsibilidade de caixa, o outro troca “liberdade de caixa” por custo menor.

Vale notar que não são opostos rígidos. Bullet descreve o cronograma de amortização, cash sweep descreve o mecanismo que captura o recebível, e existe operação que combina os dois. O ponto não é escolher um lado, é saber qual mecanismo o seu contrato usa e o que ele faz com o seu caixa.

O terceiro é o custo de estruturação. Uma operação de mercado de capitais tem custos que a taxa não captura: estruturação, registro, agente fiduciário, securitizadora, rating quando aplicável, assessoria jurídica. Em ticket menor, esse custo fixo diluído no montante pode representar um ponto inteiro de taxa equivalente, ou mais. A operação com a taxa mais baixa e o custo de estruturação mais alto pode terminar mais cara que a concorrente de taxa aparentemente pior.

O quarto, e o mais ignorado, é o que o contrato faz quando as coisas dão errado. Dois contratos com a mesma taxa e cláusulas de estresse diferentes são dois produtos diferentes, e a diferença só aparece no dia em que a obra atrasa, que é tarde demais para renegociar.

O nome disso tudo, somado, é custo efetivo total. É a taxa depois de embutir prazo, sistema de amortização, custo de montagem e o comportamento do contrato sob estresse. É o único número que compara duas propostas de verdade, e é o número que quase ninguém pede.

Existe ainda um custo que não está no contrato de jeito nenhum, e que costuma ser o maior de todos: o custo de escolher o instrumento errado para a fase errada. Uma operação de taxa baixa, desenhada para obra, tomada para financiar aquisição de terreno, carrega risco que ela não foi feita para carregar, e cobra isso de você em condição precedente, em prazo de montagem, em garantia exigida. A taxa mais baixa da mesa pode vir amarrada ao instrumento que menos serve ao seu momento.

Então a resposta ao mito é que a taxa importa, e importa menos do que o incorporador pensa. Ela é necessária para a comparação e insuficiente para a decisão. O estruturador que só te oferece uma taxa está te vendendo a primeira linha da planilha e deixando você descobrir o resto sozinho, no meio da operação. O que negocia bem não pergunta qual a taxa. Pergunta qual o custo efetivo total, e o que este contrato faz no mês em que a venda cai vinte por cento.

Até a próxima semana,

Captação de recursos para incorporadores: crédito, estrutura, garantia e o que acontece do outro lado da mesa.
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