
Muitos empreendedores conhecem o ROI. Poucos entendem o que ele realmente revela quando o crédito entra na equação.
Na mesa de crédito, o empreendedor apresenta seu projeto. Os números chamam atenção: margens atrativas, fluxo de caixa positivo, ROI do projeto em linha com o esperado.
Mas o investidor ou banco não se limita a esse cálculo. A pergunta seguinte é inevitável: “E se parte desse investimento for financiada? O retorno sobre o seu capital próprio continua de pé depois de pagar a dívida?”
É aí que o ROI deixa de ser apenas uma métrica de eficiência do negócio e passa a ser também uma régua de disciplina: mede se o crédito multiplica patrimônio ou se corrói valor.
Quer um exemplo prático?
Uma rede de restaurantes decide abrir uma nova unidade. O investimento previsto é de R$ 2 milhões, com expectativa de gerar R$ 400 mil de resultado operacional ao ano. No papel, o ROI do projeto é de 20%.
Se o dono aportar todo o capital próprio, o ROI do equity também será 20%.
Mas, se ele decidir investir apenas R$ 500 mil e financiar R$ 1,5 milhão a 12% a.a., o cenário se transforma. Após pagar R$ 180 mil em juros, o lucro líquido cai para R$ 220 mil. Ainda assim, sobre o capital próprio, o ROI sobe para 44%.
O mesmo projeto, os mesmos números, mas o crédito potencializa o retorno. Esse é o efeito da alavancagem positiva: quando o ROI do projeto supera o custo da dívida.
Agora, imagine que o lucro projetado fosse de apenas R$ 200 mil. Após pagar os juros, sobrariam apenas R$ 20 mil, e o ROI do equity cairia para 4%. E se o resultado fosse de apenas R$ 70 mil, o negócio terminaria no vermelho, com ROI negativo para o acionista. Esse é o risco da alavancagem negativa: quando a dívida deixa de multiplicar valor e passa a destruí-lo.
O cálculo é simples, mas o que ele revela depende do olhar: o do projeto ou o do capital.
Mas, na prática, existem duas leituras muito diferentes:
ROI do Projeto – mede a eficiência do negócio como um todo, sobre o investimento total.
ROI do Equity – mede o retorno efetivo para o sócio, depois de remunerar a dívida.
É nesse segundo cálculo que o crédito revela se está multiplicando patrimônio ou ampliando risco.
Para replicar essa análise em planilha:
ROI do Projeto: = Lucro_Operacional / Investimento_Total
ROI do Equity: = (Lucro_Operacional - Juros) / Capital_Proprio
Essa simulação simples mostra, de forma clara, se a estrutura de financiamento gera valor ou ameaça o retorno.
Compreender essa dinâmica não é apenas um exercício matemático. É um argumento estratégico que aumenta suas chances de captar.
Ao apresentar ROI do projeto e ROI do equity, você mostra maturidade.
Ao evidenciar o spread (diferença) sobre o custo da dívida e o ROI você mostra que conhece o preço do dinheiro. Se não estiver habituado a taxas de mercado, use a Selic como referência mínima.
Ao projetar condições adversas e ainda mostrar que há sustentação de ROI positivo, transmite-se resiliência.
Esses pontos fortalecem a análise interna e, ao mesmo tempo, aumentam a credibilidade diante de investidores e credores.
Na visão de quem financia, o ROI do equity é mais do que um cálculo de retorno é um indicador de alinhamento. Quando o acionista mantém ROI positivo mesmo depois de remunerar a dívida, o investidor enxerga disciplina, incentivo e resiliência.
Já um ROI baixo ou negativo sinaliza o contrário: desalinhamento de interesses, fragilidade de governança e risco de execução. O empreendedor perde incentivo econômico, o capital próprio se dilui em passivo, e o risco de crédito aumenta.
O ROI do acionista, portanto, não é apenas uma métrica de eficiência. É uma métrica de confiança e um sinal de maturidade empresarial.
Na Edição 3, falamos da TIR como régua de viabilidade no tempo. O ROI, por sua vez, mede a intensidade do retorno em cada real aplicado.
Um mostra a jornada; o outro, a eficiência. Juntos, eles respondem à pergunta que define qualquer decisão de crédito: “Esse projeto é eficiente e sustentável, mesmo financiado?”
A partir daqui, ROI e TIR deixam de ser fórmulas isoladas e passam a compor o vocabulário essencial de quem estrutura e de quem investe.
O ROI, no fim, será sempre calculado pelo investidor ou pelo banco. Mas quando o empreendedor conhece e sabe aplicar essa métrica, ele muda de posição: deixa de ser apenas avaliado e passa a ser percebido como alguém preparado, estratégico e consciente do uso do capital.
Num mercado em que o crédito é cada vez mais seletivo, isso faz diferença. Não é só o ROI do projeto que importa, mas a forma como o empreendedor demonstra entender seu ROI do equity, o spread sobre o custo da dívida e a resiliência em cenários de estresse.
Quem domina esse discurso não apenas acessa crédito, acessa com mais credibilidade, melhores condições e maior velocidade. É assim que se constrói reputação junto ao mercado: mostrando disciplina, clareza e inteligência financeira.
Até a próxima semana,

Levando educação. Criando um novo mercado.
📘 Glossário da edição
ROI (Return on Investment) – retorno sobre investimento; mede eficiência do capital investido.
ROI do Projeto – retorno considerando investimento total.
ROI do Equity – retorno para o acionista após serviço da dívida.
Alavancagem – uso de crédito para multiplicar (ou reduzir) retorno sobre capital próprio.
TIR (Taxa Interna de Retorno) – taxa que indica viabilidade ao longo do tempo.
Custo da Dívida – taxa efetiva de juros e encargos do capital de terceiros.
Spread – diferença entre ROI e custo da dívida; pode ser comparado à Selic como referência básica.
