Ao longo desta série, passamos por cada peça da análise de project finance: a qualidade dos recebíveis, a liquidez do estoque, o custo de obra e o desenho do desembolso, os índices de garantia e os fundos que sustentam a estrutura nos momentos de pressão.

Hoje vamos juntar tudo isso em um único lugar.

Vamos acompanhar a análise de um projeto fictício, mas construído com números realistas para o mercado brasileiro.
O objetivo não é apresentar uma fórmula.
É mostrar como o analista lê um projeto inteiro, como cada número conversa com o outro e como uma estrutura que parece boa à primeira vista pode precisar de ajustes antes de ser aprovada.

O projeto

Empreendimento residencial médio padrão, 120 unidades, localizado em bairro consolidado de Goiânia.

VGV total

R$ 48.000.000

Unidades

120

Ticket médio

R$ 400.000

Custo total de obra

R$ 28.800.000

Prazo de obra

36 meses

Vendas até o momento

60% (72 unidades)

Capital próprio aportado

R$ 4.800.000

Captação solicitada via CRI

R$ 14.400.000

O empreendedor apresenta o projeto com 60% de vendas realizadas, orçamento de obra referenciado em CUB regional e solicita uma operação de CRI de R$ 14.400.000 para complementar o financiamento da obra.

À primeira vista, o projeto parece razoável. Mas a análise não trabalha com primeira vista.

Uma observação importante antes de continuar: os critérios, índices e parâmetros utilizados ao longo desta análise são referências de mercado, não regras universais. Cada fundo, cada securitizadora e cada investidor tem sua própria metodologia. Os percentuais de haircut, os mínimos de ILG e os coeficientes de estoque variam de acordo com o perfil do ativo, o histórico do incorporador e o apetite de risco de cada casa. O que mostramos aqui segue a lógica que orienta a maioria das operações estruturadas, mas sempre haverá variações na prática.

O que o analista olha primeiro: a suficiência de recursos

A pergunta inicial é sempre a mesma: os recursos disponíveis cobrem 100% da obra até a entrega das chaves?

O capital próprio de R$ 4.800.000 representa 10% do VGV. Desse valor, R$ 2.800.000 foram aplicados em obra e R$ 2.000.000 em custos de projetos, lançamento e despesas iniciais. Ou seja, dos R$ 28.800.000 de obra, R$ 2.800.000 já foram executados.

O remanescente de obra é R$ 26.000.000.

E aqui está o primeiro problema. O empreendedor solicitou um CRI de R$ 14.400.000, mas o remanescente que precisa ser financiado é de R$ 26.000.000. Esse é um dos erros mais comuns na hora de estruturar uma captação: o incorporador tenta fazer uma operação parcial, achando que o restante será coberto pelo fluxo de repasses dos clientes.

O problema é que o CRI precisa financiar o remanescente inteiro da obra. O fluxo de repasses dos compradores existentes já está comprometido como garantia da operação, e não pode ser contado simultaneamente como fonte de recurso para cobrir a obra. São dois papéis distintos que não podem ser exercidos pelo mesmo ativo ao mesmo tempo.

A captação correta é de R$ 26.000.000.

O cronograma físico-financeiro

Com o CRI de R$ 26.000.000, o analista examina como esse recurso deve ser desembolsado.

Dos R$ 26.000.000 restantes de obra, cerca de 65% se concentram nos primeiros 24 meses. O desembolso ideal é em tranches mensais alinhadas ao cronograma físico da obra, o que garante que o empreendedor pague juros apenas sobre o capital efetivamente utilizado, não sobre o valor total desde o primeiro dia.

O fluxo de repasses dos compradores das 72 unidades já vendidas chegará ao longo de 36 meses, com concentração maior nas últimas parcelas, próximas à entrega. Esse fluxo não financia a obra, mas reforça as garantias da operação e alimenta a conta centralizadora ao longo do tempo, podendo dispensar futuras integralizações.

As 48 unidades ainda não vendidas representam a outra fonte de receita do projeto. Vendê-las ao longo da obra é importante tanto para a saúde financeira do empreendimento quanto para a evolução positiva dos índices de garantia ao longo da operação.

A carteira de recebíveis

Das 72 unidades vendidas, o analista examina a qualidade da carteira.

Unidades vendidas

72

Contratos em dia

63

Contratos com atraso superior a 60 dias (inelegíveis)

9

Valor nominal dos recebíveis elegíveis

R$ 25.200.000

Taxa de desconto aplicada

12% a.a. (~1% a.m.)

Valor presente dos recebíveis elegíveis

R$ 21.075.000

Os 9 contratos com atraso superior a 60 dias são excluídos da base elegível. Recebíveis inadimplentes não entram no cálculo porque não oferecem a previsibilidade de fluxo que a estrutura exige.

Sobre os 63 contratos elegíveis, o analista não trabalha com o valor nominal. Ele traz o fluxo futuro de parcelas a valor presente, descontado pela taxa do próprio CRI, que nesse caso é 12% ao ano, ou 1% ao mês. O resultado é R$ 21.075.000, significativamente abaixo dos R$ 25.200.000 nominais. É esse valor que entra como garantia, não o que está no contrato.

Esses recebíveis são a principal garantia da operação. Eles entram no cálculo do ILG.

O estoque

As 48 unidades não vendidas representam o estoque do projeto.

Unidades em estoque

48

VGV potencial do estoque

R$ 19.200.000

Coeficiente de liquidez aplicado

70%

Valor do estoque para fins de garantia

R$ 13.440.000

O coeficiente de 70% reflete a qualidade do ativo, um empreendimento em bairro consolidado de Goiânia com 60% de vendas realizadas, o que sinaliza velocidade comercial saudável. À medida que a obra avança e as vendas do estoque aumentam, esse coeficiente pode ser revisado positivamente, melhorando os índices ao longo da operação.

Os índices de garantia

LTV

O LTV mede a relação entre a dívida e o valor total das garantias.

Dívida: R$ 26.000.000
Garantias (VP recebíveis + estoque): R$ 21.075.000 + R$ 13.440.000 = R$ 34.515.000 LTV: 75,3%

Para uma operação com esse perfil de risco, o investidor trabalha com LTV máximo entre 60% e 70%. O resultado está acima do limite. Primeiro sinal de ajuste necessário.

ILG

O ILG mede se as garantias líquidas cobrem a exposição total da operação com a margem de segurança exigida. A fórmula utilizada é:

ILG = Garantias / Volume de Emissão
(pode ter variações)

Onde:

  • Garantias = VP da carteira atual + estoque x coeficiente de liquidez

  • Volume de emissão = custo de obra remanescente + custos de emissão do CRI

Garantias: R$ 21.075.000 + R$ 13.440.000 = R$ 34.515.000
Volume de emissão: R$ 26.000.000 + R$ 780.000 (custos de emissão ~3%) = R$ 26.780.000
ILG: 1,29x

O denominador representa a exposição máxima do credor, ou seja, o total que será emitido. Como o CRI é desembolsado em tranches ao longo da obra, o saldo devedor começa em zero e cresce gradualmente.
O analista pode usar o volume total da emissão como referência porque é esse o risco que o investidor está assumindo ao estruturar a operação (na modelagem da operação pode ser considerado dívida - saldo do fundo de obras + fundo de reserva).

O mínimo exigido é 1,30x. O projeto chega a 1,29x, um centésimo abaixo do limite.

Não é uma reprovação. É uma borda. E é exatamente esse o tipo de situação que o analista sinaliza ao empreendedor: a estrutura está quase lá, mas não está. Qualquer variação negativa nos recebíveis, um leve aumento nos custos de emissão ou um haircut mais conservador na carteira já derrubaria o índice.

Vale notar também que o ILG tende a melhorar ao longo da operação à medida que o estoque é vendido e os novos recebíveis entram no numerador. É um dos motivos pelos quais a velocidade de vendas é monitorada via covenants durante toda a operação.

E se o ILG não fechasse?

Nesse projeto, o ILG chegou a 1,29x com mínimo de 1,30x. Na prática, uma diferença dessa magnitude costuma ser resolvida em negociação, com um ajuste fino nos parâmetros ou uma pequena complementação de garantias. O projeto é essencialmente viável.

Mas vale a pena explorar o que acontece quando o índice fica realmente fora da faixa, porque essa é uma situação muito mais comum do que parece.

Quando o ILG não fecha, o analista não simplesmente nega a operação. Ele mapeia os caminhos possíveis para o empreendedor reequilibrar a estrutura. Os dois mais comuns são:

Reforço de garantias

O incorporador inclui ativos adicionais no numerador do ILG: imóveis prontos de seu patrimônio pessoal, de outras SPEs ou até recebíveis de outros projetos. Cada real de garantia adicional elegível melhora o índice diretamente. É o caminho mais rápido quando o empreendedor tem ativos disponíveis.

Aceleração de vendas antes do fechamento

Se o incorporador conseguir vender mais unidades do estoque antes do fechamento da operação, dois efeitos acontecem ao mesmo tempo: os novos recebícios entram no numerador com seu VP calculado, e o estoque a liquidar diminui, reduzindo o risco percebido. Cada unidade vendida melhora o ILG. Esse caminho é mais lento, mas não exige imobilização de novos ativos.

Na prática, as operações aprovadas com ajustes costumam combinar os dois: algum reforço de garantia e um compromisso formal de velocidade de vendas, monitorado ao longo da operação via covenants.

Os fundos

Independentemente do caminho escolhido, a estrutura prevê a constituição de pelo menos dois fundos (além do fundo de obras).

O fundo de reserva será constituído no momento do primeiro desembolso. Ele existe para garantir que a operação honra seus compromissos mesmo nos meses em que o fluxo de caixa do projeto estiver pressionado.

O fundo de despesas cobrirá os custos operacionais da estrutura ao longo dos 36 meses de operação.

Não há previsão de fundo de juros nessa operação. O fluxo de receitas, mesmo que apertado no início, é suficiente para cobrir o serviço da dívida desde o primeiro mês.

O que o analista entrega ao final

Ao fechar a análise, o analista não entrega apenas um sim ou um não. Ele entrega um mapa.

Nesse projeto, o mapa diz: a viabilidade existe, o ativo tem fundamento, mas a estrutura como apresentada tem dois problemas concretos. O volume do CRI estava subdimensionado, e as garantias atuais não cobrem 100% da exposição com a margem exigida. Os dois têm solução, mas exigem que o empreendedor tome decisões antes do fechamento.

Esse é o trabalho do crédito estruturado. Não é aprovar ou reprovar. É encontrar o ponto em que a operação é sustentável para todos os lados, e deixar isso documentado e auditável até a entrega das chaves.

Essa foi a última edição da série sobre análise de project finance.

Cada tema que abordamos ao longo dessas edições, recebíveis, estoque, custo de obra, desembolso, índices e fundos, são as peças que o analista olha ao mesmo tempo quando recebe um projeto. Não em sequência, não isoladamente. Em conjunto.

Espero que essa série tenha tornado esse processo menos opaco para você.

Se ficou com alguma dúvida ou quiser aprofundar qualquer um desses temas, é só responder a este email.

Até a próxima semana,

Levando educação. Criando um novo mercado.

Glossário da Edição

Keep Reading