
Muitos acreditam que basta acompanhar a Selic para prever o custo do crédito. Se a taxa básica caiu, a próxima captação será mais barata. Se subiu, não há o que fazer. Mas será que é só isso que define a sua taxa?
Pra começo de conversa: você sabe o que é a Selic? Ela é a taxa básica de juros da economia brasileira, usada como referência para praticamente todo o sistema financeiro. Quando o Banco Central sobe ou desce a Selic, os bancos, fundos e investidores ajustam suas operações. Mas acreditar que a taxa da sua tomada de crédito será definida somente por esse indicador é um mito e perigoso.
De onde vem esse mito?
A Selic é amplamente divulgada e acompanhada nos noticiários. Isso faz muitos empreendedores acreditarem que ela é o fator único para definir custo de crédito, como se existisse uma tabela automática: Selic + spread fixo. Na prática, a Selic é apenas o ponto de partida.
Falando do mercado imobiliário, como exemplo, um mesmo empreendimento pode buscar recursos via:
Plano empresário (bancos): atrelado à poupança, depende de relacionamento bancário e limites regulatórios.
CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários): precificado no mercado de capitais, carrega prêmio de risco maior, mas pode oferecer prazos mais longos. Geralmente está vinculado ao mercado imobiliário.
Debêntures: títulos de dívida emitidos diretamente pela empresa para investidores. Servem a diferentes setores, oferecendo flexibilidade, mas exigindo transparência e estruturação adequada.
Em todos esses casos, a Selic é referência, mas não define o custo final. O que realmente importa é como o mercado enxerga o risco e qual canal de funding está sendo utilizado.
A taxa é consequência de uma combinação de fatores:
Risco do tomador e do projeto – garantias, governança, histórico e tração comercial.
Macroeconomia – Selic, inflação, liquidez e apetite de risco no momento.
Canal de funding – bancos, mercado de capitais ou debêntures, cada um com sua lógica de custo e retorno.
Na prática, todo empreendedor recebe um rating interno. O investidor pode nunca te mostrar uma nota oficial, mas na cabeça dele sempre existe uma régua invisível que mede risco e ajusta a taxa para mais ou para menos.
Esse rating é formado pela combinação de três dimensões: o empreendimento/projeto (viabilidade, tração, garantias), o empreendedor/tomador (governança, histórico, reputação) e a macroeconomia (ciclo econômico, liquidez e setor).
Por isso, antes de perguntar “qual é a taxa de mercado?”, questione:
Meu projeto está organizado para apresentar risco baixo?
O canal que busco está alinhado ao momento macroeconômico?
Minhas garantias e governança sustentam a precificação que eu espero?
A Selic é apenas a régua inicial. O que realmente define a sua taxa é a forma como o mercado enxerga o seu projeto, a sua gestão e o canal de funding que você escolheu. Quer pagar menos? Não adianta esperar a Selic cair. O caminho é melhorar seu rating interno e estruturar bem o seu negócio para conquistar condições melhores.
Até a próxima semana,

Levando educação. Criando um novo mercado.
📖 Glossário da edição
Selic – Taxa básica de juros da economia brasileira, definida pelo Banco Central. Serve como referência para operações financeiras em todo o sistema.
Plano empresário – Linha de crédito bancária para financiar obras, lastreada principalmente em recursos da poupança.
CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários) – Título emitido por securitizadora, lastreado em recebíveis imobiliários.
Debêntures – Títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos diretamente junto a investidores, podendo ter diferentes prazos, custos e garantias.
Rating interno – Avaliação implícita que todo investidor faz, considerando o empreendimento, o empreendedor e a macroeconomia.
Spread – Parcela adicional cobrada sobre a taxa básica (como Selic ou CDI). Representa o prêmio de risco do tomador ou do projeto, além de custos administrativos e margem do credor.
