Quando um empreendedor busca crédito, ele normalmente pensa em três coisas: qual a taxa, qual será a liberação e qual o prazo.

Mas o credor pensa diferente.
Depois de pré-aprovar o empreendimento, o avanço de vendas e de obras, ele começa sua análise se perguntando: quanto vale a garantia que sustenta essa operação? como é o fluxo de recebíveis que dará fôlego suficiente para os pagamentos mensais?

A maioria dos empreendedores não sabe o que são, como funcionam e como são calculados os índices de garantia. E é justamente nesse detalhe que há a determinação se a operação é aprovada, ajustada ou negada.

Hoje vamos abrir essa caixa-preta, começando pelos índices mais utilizados no mercado de crédito: LTV, ICSD e ILG. Três métricas que mostram para o investidor exatamente quanto risco ele está assumindo.
E três índices que você, empreendedor, precisa conhecer para entender como o mercado de crédito funciona.

Por que os índices de garantia existem

Antes de liberar qualquer recurso, fundos, securitizadoras e bancos precisam responder a uma pergunta simples: se o projeto der errado, as garantias cobrem a dívida?

Esses índices são ferramentas para medir três pilares essenciais:

1. Valor da garantia
Quanto vale o ativo que está sendo colocado em contrapartida.

2. Capacidade de liquidação
Se for necessário executar a garantia, ela precisa cobrir o saldo da operação.

3. Comportamento do fluxo
Se o fluxo atrasar ou cair, a garantia permanece suficiente?

Esses índices traduzem a verdadeira pergunta do crédito: há garantia suficiente para sustentar a dívida do início ao fim?

1. LTV – Loan to Value

O LTV mede a relação entre o valor da dívida e o valor da garantia.

Exemplo:

Crédito: 20 milhões de reais
Garantia: 40 milhões de reais (já considerando valor de liquidez)
LTV: 50%

Quanto menor o LTV, menor o risco para o investidor (afinal, ele consegue liquidar a garantia e reaver o valor do crédito).
Por isso bancos e investidores costumam trabalhar com faixas como:

  • 30% a 50% para operações conservadoras (garantias menos líquidas)

  • 60% a 70% para operações moderadas

  • até 80 por cento em operações com garantias muito líquidas.

O LTV geralmente é muito utilizado em operações que utilizam imóveis prontos como garantia, como um giro de estoque ou home equity.

2. ICD / ICSD - Índice de Cobertura da Dívida (ou Saldo Devedor)

O ICD mede se todas as garantias somadas conseguem cobrir integralmente o saldo da operação. É um índice mais comum no mercado de capitais do que no mercado de financiamento bancário.

Sua forma central é:

Ou, em algumas operações:

A lógica é sempre a mesma:
para cada 1 real de dívida, deve haver de 1,X reais de garantias líquidas, sendo o X variante de acordo com o tipo e risco da operação, podendo ir de 1,1 a 1,7 (também pode variar de acordo com a forma de calcular).

O ICD serve para responder: existe cobertura suficiente para garantir a conclusão da operação?

3. ILG - Índice de Liquidez de Garantias

Muito usado em CRI e operações que envolvem recebíveis. O ILG responde: a carteira e demais garantias conseguem sustentar a operação em cenários de estresse?

A estrutura base mede:

Mas aqui é preciso atenção: o ILG tem uma fórmula central, mas não existe um modelo único.

O que entra como “garantia líquida” e como “exposição líquida” varia conforme o tipo de ativo, o estágio do projeto, a liquidez da carteira, o comportamento esperado do fluxo e o conservadorismo do investidor.

Por isso dois investidores podem apresentar ILGs diferentes para o mesmo projeto.
Não é divergência. É calibragem de risco.

O que pode variar no numerador do ILG

Alguns credores incluem apenas recebíveis elegíveis.
Outros adicionam recebíveis de cauda (carteira após o prazo da operação) com haircut.
Outros incluem estoque, mas com coeficiente de liquidez aplicado (30, 40 ou 70%).
Outros aceitam créditos cedidos ou reservas como reforço.

O que pode variar no denominador do ILG

Algumas casas usam apenas o saldo devedor atualizado.
Outras somam a obra a executar.
Outras descontam o saldo da conta centralizadora.
Outras incluem despesas futuras, repasses pendentes ou amortizações já provisionadas.

Tudo depende da exposição líquida real que o credor ainda precisará cobrir.

Como referência em muitos CRI o ILG mínimo varia de 1,3 a 1,7, o que significa que, para cada 1 real de dívida, deve haver 1,30 até 1,70 reais sustentando a operação.

Dominar o ILG e os demais índices não é aprender uma fórmula.
É entender como o credor enxerga a liquidez, a previsibilidade e a solidez das garantias.

Empreendedores preparados não perguntam “qual é o ILG?”. Eles perguntam: “quais ativos entram no ILG desta operação e com qual peso?”

Essa mudança de postura transforma a negociação.
Ela mostra maturidade financeira, reduz o risco percebido e abre espaço para melhores condições de crédito.

A maturidade financeira se traduz em confiança.
E confiança se traduz em negócio.

Se os índices não fecham, o problema não é taxa.
O problema é viabilidade.

LTV, ICSD e ILG não são termômetros de preço.
São sinais vitais de sustentabilidade.

Quando a garantia não sustenta a estrutura, não existe operação.
Não há taxa a negociar.
O investidor simplesmente não entra.

Por isso, dominar esses indicadores é dominar mais do que a precificação. É dominar a viabilidade da própria captação. E quem sabe, até da própria operação.

Se algo desta edição gerou dúvidas ou reflexões, conte comigo.

Até a próxima semana,

Levando educação. Criando um novo mercado.

📘Glossário da Edição

LTV: Relação entre dívida e valor das garantias.
ICD / ICSD: Medem se as garantias cobrem integralmente o saldo da dívida.
ILG: Mede se as garantias líquidas sustentam a operação em qualquer cenário.
Haircut: Desconto aplicado a garantias menos líquidas.
Exposição líquida: Parcela da dívida ainda não coberta por fluxo, obra executada ou saldo de contas

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