Você provavelmente já ouviu falar em TIR. Muitos empreendedores sabem que ela é a Taxa Interna de Retorno de um projeto e até têm uma ideia de como funciona. O que pouca gente percebe é que a TIR não é apenas um indicador de viabilidade. Ela também é um dos fatores que investidores e credores consideram na hora de aprovar ou não um financiamento.

Imagine a cena. Você apresenta um empreendimento a um potencial investidor. Ele ouve com atenção sobre o terreno, as vendas projetadas, as margens. Em dado momento, faz a pergunta que define se a conversa avança: “Qual é a TIR desse projeto?”.

A resposta não interessa apenas a ele. Ela é fundamental para você, empreendedor, entender se vale a pena lançar o produto, se as margens estão corretas e se o projeto suporta a tomada de crédito.

A TIR pode ser entendida como a taxa de juros do seu próprio projeto. É a taxa que zera o Valor Presente Líquido do fluxo de caixa esperado. Em outras palavras, traduz em uma taxa percentual o retorno do investimento considerando entradas e saídas de recursos ao longo do tempo.

Exemplo:

  • Investimento inicial de R$ 1 milhão

  • Entradas de R$ 400 mil a cada ano durante 4 anos

  • Resultado: TIR de aproximadamente 22% ao ano.

Esse número significa que o projeto rende, em média, 22% sobre o capital aplicado. Em outras palavras, se o custo do crédito for menor que esse percentual, faz sentido captar.

É importante lembrar que a TIR mede a taxa de retorno embutida no fluxo de caixa, mas não mostra o valor absoluto criado. Para isso usamos o VPL, que revela em reais se o projeto gera ou destrói valor.

Na análise de crédito, garantias e governança sempre importam. Mas existe uma régua silenciosa em toda operação: a TIR precisa ser maior do que o custo da dívida.

Se a TIR do projeto for maior que o custo do capital, a operação tende a criar valor e o crédito pode ser um acelerador. Se a TIR for menor, o projeto destrói valor ao captar e o crédito se torna um peso.

Na prática, não é apenas a Selic ou a taxa publicada no mercado que definem o acesso a recursos. O que pesa é a relação entre a TIR do projeto e o custo do funding disponível.

Mesmo que você não esteja em busca de crédito no momento, a TIR é um instrumento poderoso de gestão. Com ela, é possível:

  • Avaliar se vale a pena lançar um empreendimento agora ou esperar

  • Testar se as margens projetadas são suficientes

  • Validar se o produto está precificado corretamente

  • Dialogar de igual para igual com investidores, mostrando preparo e clareza

Quando o empreendedor domina a própria TIR, ele deixa de ser apenas alguém que precisa de crédito e passa a ser alguém que mostra maturidade para gerir capital.

De forma mais clara, sobre a análise de projetos para a captação de crédito (suponha que sejam produtos semelhantes, em praças semelhantes):

  • Projeto A: TIR de 18%

  • Projeto B: TIR de 28%

Se o custo do capital disponível é de 20% ao ano, o Projeto A dificilmente encontrará crédito competitivo. Já o Projeto B, com retorno superior, tem condições de captar em bases mais favoráveis.

A diferença não está apenas na retórica do empreendedor. Está na lógica econômica que sustenta o projeto e é exatamente essa lógica que credores e investidores avaliam antes de liberar recursos

A TIR é um índice valioso para medir a adequação do projeto e sua capacidade de captar crédito. Mas ela não pode ser a palavra final. Outros indicadores completam a régua: o ROI, que mostra de forma mais direta a rentabilidade sobre o capital aplicado, o WACC, que mede o custo real do capital, e o VPL, que aponta se o projeto cria ou destrói valor.

Sozinhos, esses índices podem enganar. Juntos, oferecem a visão completa que investidores e credores usam para decidir se o projeto merece capital.

Para você, empreendedor, o ganho é duplo. De um lado, dominar a TIR permite conversar com credores e investidores usando a mesma régua que eles usam para precificar risco. De outro, ajuda a avaliar os próprios projetos com mais clareza, decidindo se vale a pena lançar, se as margens estão corretas e se o produto está bem precificado.

A pergunta final, portanto, não é apenas “quanto custa o crédito?”, mas “a dívida cabe no meu projeto e a TIR sustenta esse custo?”.

Nas próximas edições da Funding Insights vamos aprofundar ROI, WACC e VPL. O objetivo é construir, passo a passo, a régua completa de análise de crédito que diferencia projetos que ficam no papel daqueles que conquistam funding competitivo.

Até a próxima semana,

Levando educação. Criando um novo mercado.

📖 Glossário da edição

TIR (Taxa Interna de Retorno) – Taxa que zera o VPL de um projeto; representa o retorno efetivo anual

Fluxo de Caixa do Projeto – As entradas e saídas previstas ao longo da vida de um investimento

Custo da Dívida – Taxa que reflete o preço do capital emprestado, incluindo juros e spreads

ROI (Retorno sobre Investimento) – Indicador que mede o ganho proporcional sobre o capital aplicado

WACC (Custo Médio Ponderado de Capital) – Combinação entre o custo da dívida e do capital próprio

VPL (Valor Presente Líquido) – Diferença entre o valor presente dos fluxos futuros e o investimento inicial; se positivo, o projeto cria valor

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