Por que a dívida pode valer mais do que o dinheiro?

Muitos empreendedores ainda enxergam a dívida como um problema. Mas e se, em vez de freio, ela pudesse ser um acelerador? Em finanças corporativas existe um consenso: quando bem estruturada, a dívida pode ser mais valiosa do que o capital próprio. A pergunta não é se você deve, mas como usar a dívida em alavanca para crescer.

A lógica do endividamento estratégico

A dívida permite antecipar crescimento, preservar caixa e multiplicar a escala de projetos. No setor imobiliário, isso significa tirar uma obra do papel sem esperar anos pela geração orgânica de recursos. Para empresas de outros segmentos, pode ser a diferença entre perder ou aproveitar uma oportunidade de mercado. Mas não se trata apenas de contrair crédito: trata-se de entender a estrutura de capital e escolher o ponto em que o endividamento gera valor, sem comprometer a saúde financeira.

Custo de oportunidade – Usar apenas recursos próprios pode significar abrir mão de oportunidades de mercado. Cada mês de atraso em um lançamento ou expansão é um custo invisível. A dívida permite acelerar o tempo do projeto e capturar retornos que superam o custo dos juros.

Alavancagem financeira – Se o retorno do projeto é maior do que o custo da dívida, o empreendedor multiplica o retorno sobre seu patrimônio líquido.

Exemplo: investir R$ 10 milhões de capital próprio em um projeto que gera 20% de retorno = R$ 2 milhões de resultado.

Agora, se esse empreendedor investir apenas R$ 5 milhões próprios e financiar outros R$ 5 milhões a 12% ao ano, o resultado muda:

Receita do projeto: R$ 2 milhões (20% sobre os R$ 10 milhões).

Despesa com juros: R$ 600 mil (12% sobre os R$ 5 milhões de dívida).

Resultado líquido: R$ 1,4 milhão. À primeira vista, o retorno líquido de R$ 1,4 milhão parece inferior aos R$ 2 milhões iniciais. Mas é preciso observar a proporcionalidade: como o empreendedor aplicou apenas R$ 5 milhões, o retorno sobre o capital próprio salta para 28%.

Além disso, ao aplicar apenas metade do capital, o empreendedor poderia usar os outros R$ 5 milhões em um segundo projeto, multiplicando ganhos.

Mas é importante saber: alavancar 100% do projeto quase nunca é saudável. Sem participação do empreendedor, o risco percebido cresce, o custo sobe e, muitas vezes, o investidor nem aceita. É a dívida bem calibrada que multiplica valor.

Trade-Off Theory – Existe um ponto ótimo de endividamento. Até certo nível, a dívida reduz o custo médio de capital (pelo benefício fiscal dos juros e pela disciplina de gestão). Mas excesso de alavancagem aumenta risco de insolvência. O equilíbrio está em captar até o ponto em que os benefícios superam os riscos.

Pecking Order Theory – Explica a hierarquia natural de financiamento. Empresas tendem a usar primeiro recursos próprios, depois dívida e só em último caso abrir capital ou diluir sócios. Isso ajuda a entender por que tantas companhias de médio porte enxergam a dívida como ferramenta estratégica: preserva controle e acelera crescimento.

Disciplina da dívida – Assumir compromissos financeiros obriga a empresa a projetar, acompanhar e controlar melhor seu fluxo de caixa. Para o investidor, esse é um sinal de maturidade.

Esses conceitos ajudam a entender por que a dívida, quando bem usada, pode ser mais valiosa que o próprio dinheiro.

Checklist prático

Antes de buscar crédito, o empreendedor deve se perguntar:

  • Tenho fluxo de caixa organizado e atualizado?

  • Minhas garantias estão bem documentadas?

  • Minha estratégia comercial comprova tração de vendas?

  • Sei exatamente quanto quero captar, por quanto tempo e para qual objetivo?

  • O ROI do meu projeto supera o custo da dívida?

  • A TIR é maior que o WACC e o VPL é positivo?

  • A estrutura de capital está equilibrada (sem depender de 100% de dívida)?

Se alguns desses termos ainda soam distantes, continue acompanhando. Vamos explorar cada conceito em detalhe nas próximas edições.

Nessa edição, quisemos mostrar que dívida não é um peso a ser evitado, mas uma ferramenta que, quando bem usada, vale mais do que o próprio dinheiro.

A verdadeira questão não é “devo me endividar ou não?”, mas “estou estruturado para transformar crédito em crescimento sustentável?”

Até a próxima semana,

Levando educação. Criando um novo mercado.

📖 Glossário da edição

Estrutura de Capital – Combinação entre capital próprio e capital de terceiros usada para financiar uma empresa.

Custo de Oportunidade – O que se deixa de ganhar ao optar por uma alternativa em detrimento de outra.

Alavancagem Financeira – Uso de dívida para aumentar o retorno sobre o capital próprio.

Trade-Off Theory – Teoria que mostra o ponto ótimo de endividamento, onde os benefícios fiscais e de disciplina superam os riscos.

Pecking Order Theory – Teoria que explica a hierarquia natural de financiamento: primeiro recursos próprios, depois dívida, e só por último emissão de ações.

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